A bailarina na tempestade perfeita: Por que 2026 exige mais do que apenas “servir comida”

A bailarina na tempestade perfeita: Por que 2026 exige mais do que apenas “servir comida”

Se eu tivesse a missão de traduzir a complexidade do setor de refeições coletivas em uma única imagem, ela seria, invariavelmente, a de uma bailarina caminhando sobre uma corda bamba. Em suas mãos, ela equilibra um bastão longo e pesado: em uma ponta, repousa o peso do B2B (a empresa contratante, com suas exigências de custos e métricas); na outra, vibra a expectativa do B2C (o consumidor final, o colaborador que busca sabor e conforto).

Considero essa dualidade a maior riqueza do nosso segmento. É uma poesia em forma de atendimento, onde a técnica rígida precisa conversar com a leveza da entrega. No entanto, quem observa o cenário atual sabe: a corda bamba mudou. O vento sopra mais forte e a rede de proteção desapareceu.

A tempestade perfeita de 2026

O ano de 2026 não bateu à nossa porta com sutileza. Ele nos foi apresentado como a “tempestade perfeita”, onde fatores políticos, econômicos, tecnológicos e humanos convergem de maneira inédita. Não estamos apenas vivenciando uma evolução tecnológica digna das páginas de Isaac Asimov, onde a automação e os dados prometem milagres. Estamos vivendo um paradoxo humano.

De um lado, temos o RH e a gestão corporativa. Eles não querem mais apenas “comida” ou um refeitório funcional. A conversa mudou de tom: eles exigem performance, compliance total, produtividade e métricas de ESG que sejam auditáveis, e não apenas “greenwashing”. Do outro lado, temos o colaborador. Ele é a mesma pessoa que, fora da empresa, consome experiências digitais personalizadas e frequenta restaurantes que contam histórias. Ele não quer apenas se alimentar para continuar trabalhando; ele sonha com a experiência, com a pausa, com o momento de descompressão.

Equilibrar a frieza dos números exigida pelo contrato com o calor humano exigido pelo usuário é o nosso grande desafio. E a única ferramenta capaz de estabilizar essa bailarina no meio do caos é a Inovação.

Inovação: oxigênio, não departamento

Para atravessar essa tempestade, a inovação precisa deixar de ser uma palavra bonita dita em reuniões de brainstorming ou um departamento isolado no fim do corredor. Inovação, em nosso mercado, virou oxigênio. Se você para de inovar, você para de respirar.

Aqui na LemosPassos, entendemos isso visceralmente: a inovação não nasce em uma sala fechada, fruto de uma ideia solitária de um “gênio” criativo. Ela é transversal. Ela precisa estar impregnada na estratégia da empresa, fazendo parte do dia a dia de todos os setores: da nutricionista que desenha o cardápio ao comprador que negocia com o fornecedor local.

Mas cuidado: sem equilíbrio, a inovação pode se converter em um problema. Ela enfrenta uma dicotomia cruel: “Se não inovarmos, não avançamos; se mudarmos demais, eles podem não gostar”. É sempre melhor investir dinheiro no que seus clientes realmente querem do que gastar fortunas tentando convencê-los a gostar daquilo que você criou.

Conhecer a caixa para pensar fora dela

É comum ouvirmos o clichê “pense fora da caixa”. Mas, em refeições coletivas, pensar fora da caixa sem conhecer profundamente a caixa é loucura. A “caixa” são as restrições sanitárias, a logística complexa, o custo per capita apertado, a segurança alimentar. Só quem domina essas regras (a caixa) tem autoridade para quebrá-las ou expandi-las de forma segura.

O segredo está em empilhar tendências mercadológicas e de consumo sobre essa base sólida. É vivenciar a estratégia da empresa e, nesse ambiente de convergências, propor os serviços que vão alimentar o futuro. É entender que usar Inteligência Artificial para prever a demanda não é apenas tecnologia, é respeito ao orçamento do cliente. É compreender que o “upcycling” de alimentos e o uso integral de vegetais não é apenas sustentabilidade, é uma resposta à exigência de um consumidor que não tolera mais o desperdício moral e financeiro.

Antes feito que perfeito: a cultura do teste

Neste cenário volátil, a esperança não é estratégia. Não podemos sentar e esperar que a tempestade passe. Precisamos recordar que o usuário do nosso restaurante é o mesmo indivíduo imerso em novas tecnologias, que pede delivery por aplicativo e avalia serviços em tempo real. Precisamos levar essa agilidade para o redesenho das nossas operações.

A metodologia para isso é clara: testar rápido para aprender mais rápido. Cada nova ideia (seja um novo layout de buffet, um sistema de pagamento autônomo ou um cardápio “plant-based”) precisa ser testada e avaliada em pequena escala. Muitas vezes, fazemos isso de forma lúdica, construindo o Mínimo Produto Viável (MVP) dentro de uma unidade piloto.

Na inovação real, não existe o “100%”. A busca pela perfeição é paralisante e não cabe no século 21. Aceite o erro, pois ele faz parte do processo de descoberta, mas corrija-o rápido.

O restaurante como hub de conexão

Por fim, onde entra o coração nessa engrenagem técnica? Podemos nos basear em terabytes de dados, mas a alimentação, em sua essência, ainda é sentimento. Servir e encantar é a nossa meta final.

Costumo dizer, e repito sempre que posso: a alimentação é a maior rede social do mundo. Antes do Facebook, do LinkedIn ou do Instagram, as conexões humanas já eram permeadas e seladas pelo ato de comer.

Esse é o nosso grande ponto de partida. Precisamos construir restaurantes corporativos que não sejam um fim em si mesmos (apenas um local para ingerir calorias), mas sim verdadeiros hubs de conexões. Espaços projetados para proporcionar consumo consciente, gerar novos negócios, fomentar hábitos saudáveis e criar formas de interagir.

O restaurante da firma precisa ser o lugar onde a cultura da empresa acontece. Se conseguirmos transformar o refeitório em um ambiente onde as pessoas querem estar, e não onde elas precisam estar, teremos vencido o jogo.

Que em 2026, tenhamos a coragem de ser a bailarina. Que não apenas nos equilibremos na corda bamba da economia e da gestão, mas que sejamos capazes de encantar a plateia, transformando a tempestade em cenário para o nosso melhor espetáculo.

Afinal, ou você dita a tendência, ou você vira estatística.

– Carlos Santana Silva, Gerente de Projetos e Inovação da LemosPassos.