Quando falamos em segurança do trabalho, especialmente em ambientes operacionais, é comum ouvir que “acidente faz parte”. Mas a verdade é que acidente não é normal, é falha de processo.
Em 2024, tive a oportunidade de liderar uma gestão de alimentação que alcançou um marco importante: um ano inteiro sem nenhum acidente com afastamento, em um cenário de alta complexidade operacional.
Para dar dimensão do desafio:
- 2.5M Refeições servidas: mais de 2.500.000 refeições servidas no ano
- 20M Horas trabalhadas: mais de 20 milhões de horas trabalhadas
- 0 Afastamentos: zero acidentes com afastamento em 2024
Ou seja: um cenário praticamente perfeito para a ocorrência de acidentes.
Mesmo assim, zeramos os afastamentos. E isso não aconteceu por sorte — aconteceu por cultura, processo e liderança.
Cozinha industrial: o ambiente perfeito para o risco
A cozinha é um dos ambientes mais críticos quando falamos em segurança:
- Superfícies molhadas e escorregadias
- Equipamentos quentes e cortantes
- Uso constante de facas e máquinas
- Ritmo acelerado e pressão por volume
- Pessoas em movimento o tempo todo
Somado a isso, existe um fator muitas vezes negligenciado: a naturalização do risco.
“Corte pequeno”, “queimadura leve”, “escorregão sem queda” passam a ser vistos como parte da rotina.
E é exatamente aí que mora o perigo.
As principais ações que fizeram a diferença
Presença real na operação (Gemba): Saímos mais do escritório e fomos para o chão de fábrica. Aumentamos significativamente os gembas nas cozinhas, observando processos, fluxos, comportamentos e riscos reais.
Não para fiscalizar, mas para:
-
- Entender a realidade
- Escutar o time
- Melhorar processos junto com quem executa
Paradão da Segurança – 12 encontros no ano: Criamos uma ação chamada “Paradão da Segurança”.
Durante o ano:
- Realizamos 12 encontros nacionais
- Parávamos todas as operações do Brasil por 60 minutos
- O único tema: segurança
O diferencial:
- Presença da alta liderança
- Conversas diretas, sem PowerPoint infinito
- Casos reais, situações reais, riscos reais
Isso mostrou uma coisa muito clara para os times: segurança não é discurso, é prioridade estratégica.
A Voz da Segurança – escuta ativa de quem vive o risco: Implantamos o programa “A Voz da Segurança”, com foco total em escuta ativa.
Quem mais entende o risco não é quem está no escritório. É quem está no front.
Criamos canais para que os colaboradores pudessem:
- Reportar riscos
- Sugerir melhorias Apontar falhas de processo
- Falar sem medo de punição
Isso gerou algo poderoso: corresponsabilidade.
Medição, segurança psicológica e propósito
Medição real: gravidade e microeventos: Começamos a medir segurança de forma mais madura:
- SLA de tratamento de eventos
- Taxa de gravidade
- Registro de todo e qualquer incidente, até arranhões
O objetivo não era burocracia. Era enxergar padrões antes que viessem acidentes graves.
Pequeno corte hoje = grande acidente amanhã, se ignorado.
Segurança psicológica, o fator invisível. Talvez o ponto mais importante de todos. Trabalhamos fortemente para criar um ambiente com:
- Confiança
- Respeito
- Abertura para falar
- Sem medo de punição por reportar erro
As pessoas só cuidam da segurança quando se sentem seguras para falar sobre ela.
O verdadeiro diferencial: propósito
No fim do dia, não foi só processo. Foi propósito.
Conseguimos conectar a segurança com algo maior:
- Cuidar da própria vida
- Cuidar do colega
- Voltar para casa inteiro
- Sustentar uma operação saudável no longo prazo
A operação entendeu que produzir muito é importante. Produzir com segurança é inegociável.
Zero acidentes não é utopia. É resultado de liderança presente, cultura forte, escuta ativa, processos claros e pessoas no centro da estratégia. Isso só é possível ao interpretar segurança não como uma área, e sim como um valor organizacional. E, quando ela vira cultura, os resultados aparecem — nos números, nas pessoas e, principalmente, nas vidas preservadas.
– Felipe Rios, Especialista em Facilities & Food Service