Muitas vezes, os treinamentos de capacitação são vistos como uma pausa obrigatória — e por vezes tediosas — já vivenciei por diversas vezes, colaboradores dormindo durante o meu treinamento, uma dura realidade.
No entanto, para quem atua na linha de frente, a qualidade e cuidado com os alimentos precisa ser tangível, não basta dizer “lave as mãos a cada troca de tarefa”; é preciso mostrar porque aquele canto da unha esquecido é o esconderijo perfeito para patógenos que podem causar um possível surto.
Ao aplicarmos dinâmicas que respeitam o operacional, transformamos a legislação em cultura, treinar usando o lúdico não é brincar de trabalhar; é garantir que a ciência da segurança de alimentos seja acessível e indispensável para quem, de fato, protege a vida do cliente todos os dias durante o preparo dos alimentos.
A Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL): O adulto aprende melhor quando enfrenta desafios reais. Em vez de uma palestra sobre contaminação cruzada, que tal levar a equipe para a área de estoque e pedir que identifiquem “o que há de errado nesta cena”? Ao lidar com uma caixa de papelão em local indevido ou um termômetro descalibrado, o colaborador exercita o olhar crítico. A segurança de alimentos deixa de ser uma regra imposta e passa a ser uma solução de problemas.
Traduzindo o “Porquê” dos Procedimentos: Por que não pode usar perfume? Por que a barba deve estar feita? Por que o paninho de prato é um vilão? Na minha experiência, a adesão aumenta drasticamente quando o “não pode” é substituído pela explicação do risco. Utilizar dinâmicas como o pó fluorescente (que simula germes sob luz UV) revela o invisível. Quando o colaborador vê onde a “sujeira” ficou após uma lavagem mal-feita, a consciência dele tende a mudar.
O Treinamento pontual e a Gestão de Momento: Capacitação não acontecem apenas na sala de treinamento. Ela acontece quando um gestor corrige uma técnica de corte ou reforça a importância da etiqueta de validade no exato instante da manipulação. Isso é educação em tempo real, o monitoramento do dia a dia deve ser educativo, não punitivo.
Gamificação e Engajamento: Trazer elementos lúdicos, como gincanas de higiene ou quadros de “Destaque da Qualidade”, estimula o senso de pertencimento, quando o colaborador entende que ele é o guardião da saúde do cliente, ele assume a responsabilidade de forma orgânica. Em seguida compartilho algumas estratégias lúdicas (testadas e aprovadas) onde podemos aumentar o engajamento dos colaboradores em relação às Boas Práticas.
O “Teatro do Absurdo”
Em vez de apenas apontar erros, peça para que dois colaboradores encenem uma situação cotidiana na cozinha, mas com um detalhe: eles devem cometer o máximo de erros propositais de Boas Práticas de Fabricação (BPF) em dois minutos. A Dinâmica: O restante da equipe atua como “auditores” em uma competição para ver quem anota mais falhas técnicas. O Ganho: Isso estimula o olhar crítico e o senso de observação de forma leve, transformando a correção em um desafio divertido, risadas são certas durante a dinâmica, certeza que ninguém da equipe irá dormir.
Dinâmica do Glitter: A “bactéria” Invisível
Como a segurança de alimentos lida com o que não vemos, tornar o invisível “real” é fundamental.
A Dinâmica: No início de uma reunião, aperte a mão de um colaborador usando um pouco de glitter fino escondido na palma. Ao longo da conversa, o glitter vai se espalhar por copos, papéis e outras pessoas.
A Persuasão: No final, mostre como a “bactéria” (glitter) viajou por todo o grupo através de um único contato. É o argumento visual perfeito para explicar por que a higienização das mãos e a contaminação cruzada são riscos reais e o mais perigoso de todos.
“Escape Game” da Qualidade
Transforme a área de estoque ou a cozinha (em horário sem muito movimento) em uma sala de enigmas.
A Dinâmica: Esconda “pistas” que são, na verdade, inconformidades (um produto sem etiqueta, uma caixa de papelão armazenada diretamente no piso, um insumo vencido etc.). A equipe só “vence” o jogo e ganha um brinde ou destaque se encontrar e corrigir todos os problemas em um tempo determinado.
O Ganho: O colaborador deixa de ser um executor passivo e passa a ser o guardião da segurança dos alimentos, resolvendo problemas em tempo real.
Gestão de Momento: O “Feedback Positivo em Público”
A persuasão no bom sentido acontece quando o acerto é celebrado.
A Prática: Ao monitorar a operação e ver um colaborador higienizando a bancada corretamente sem ser solicitado, elogie-o na frente da equipe ou utilize um quadro de “Destaques da Qualidade”.
A Persuasão: Isso cria o desejo de pertencimento e reconhecimento, fazendo com que o rigor técnico vire um hábito fluido para todos, não por medo de punição, mas por orgulho do trabalho bem-feito.
Como especialista, nosso papel na Gestão da Qualidade é ser o elo entre a legislação e a prática. Treinar é, acima de tudo, comunicar, é transformar o rigor técnico em um hábito fluido. Segurança dos alimentos não se faz apenas com planilhas, registros e Manuais, mas com pessoas conscientes de que cada detalhe do seu dia a dia tem o poder de proteger a vida dos clientes.
Se queremos resultados diferentes na conformidade dos nossos estabelecimentos, precisamos de abordagens que respeitem o entendimento e a rotina de quem faz a operação acontecer, precisamos tornar a ciência acessível e compreensível.
– Fabiana Borrego, Empresária do setor do Food Service, formada em nutrição e gastronomia. Sócia fundadora da ChefNutri, empresa que atua na Gestão da Qualidade para o Food Service (empresa cadastrada no Sebrae e homologada pela Vigilância Sanitária de Florianópolis)
e da Geluk Academy, empresa de curadoria de eventos e missões para o seguimento de Alimentos e Bebidas. Especialista em gestão da qualidade, auditora interna HACCP | APPC, liderança e gestão de pessoas.